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Discriminação e violência contra crianças e mulheres - até quando?
Comentário sobre a crônica "Um arcebispo mais ou menos" de Contardo Calligaris, publicada na Folha de São Paulo de 12/03/09.
Telmo Kiguel
Cinco meses antes da publicação dessa crônica, no Simpósio do Departamento de Psicoterapia, no XXVI Congresso Brasileiro de Psiquiatria, como introdução à mesa redonda "Psicoterapia de Abusados e Abusadores", apresentamos quatro passagens do Velho Testamento.
O objetivo era deixar claro que o discriminador de mulheres e crianças pode ser também um abusador. Talvez os abusadores também se sintam "liberados-influenciados" pelos relatos bíblicos onde discriminação e abuso são considerados atos "normais-rotineiros".
Veremos a seguir, após esta introdução à mesa redonda “Psicoterapia de abusados e abusadores”, três apresentações clínicas originais e atualizadas sobre o tema básico que é a discriminação e abuso de crianças e mulheres, que muitas vezes é noticiado na imprensa como se fosse decorrente de nossa sociedade contemporânea que abandonou valores religiosos, éticos ou morais.
Pelo relato que farei a seguir com quatro exemplos, veremos que a discriminação e a violência física contra as mulheres e crianças já está descrita em relatos bíblicos do Velho Testamento. Lembramos que o Velho Testamento segue vigente para a religião católica e judaica.
Esta é uma mesa redonda clínica e por isso escolhi este conteúdo para pensarmos e debatermos, no final, sobre os motivos da presença deste tipo de ocorrência nos primórdios da humanidade e sua presença constante desde lá até os tempos atuais. Creio que teremos uma reunião muito rica em que poderemos pensar em especial também nos abusadores.
E fica desde já a pergunta para todos aqui presentes: se a discriminação, os maus tratos, os abusos, a violência física e os assassinatos contra crianças e mulheres já ocorria quando a bíblia foi escrita e onde a descrição é feita como algo comum ou rotineiro, o que necessitaríamos fazer atualmente para que este evento diminuísse de frequência?
1º exemplo - No Gênesis está relatado que Deus enviou dois anjos sob forma humana à Sodoma para comprovar as queixas que havia sobre ela e Gomorra. Chegando lá, foram muito bem recebidos por Lot em sua casa. Mais tarde, praticamente todos os homens do lugarejo ficaram sabendo da chegada de dois forasteiros e solicitaram a Lot que mandasse suas visitas para fora para serem abusados. Eis o que disse Lot a eles: “Imploro, meus irmãos, que não cometam tamanha maldade. Tenho duas filhas virgens. Vou buscá-las para que vocês façam o que quiserem com elas, mas deixem estes homens que confiaram na minha hospitalidade”.
2º exemplo – Também no Gênesis está descrito que, após o dilúvio, Noé e seus três filhos lavradores voltaram ao trabalho. Certo dia Noé se embriagou e ficou nu em sua tenda. Cam, seu filho mais moço, pai de Canaan, entrou e viu a cena. Avisou seus irmãos, Sem e Jafet que pegaram um manto e entraram, de costas, na tenda para cobrir o pai e assim não vê-lo desnudo. Ao acordar da embriagues, soube que seu filho Cam o viu nu e por isso amaldiçoou Canaan (seu neto e filho de Cam): “Será escravo dos escravos de seus irmãos e que Deus proteja Sem e Jafet e que Canaan seja escravo deles”.
3º e 4º exemplos – No Gênesis está descrito o pacto que Deus fez com Abraham para que este provasse sua fé. No caso seria oferecer seu filho Isaac em holocausto. Chegando ao local determinado para a execução e já com a arma na mão pronto para degolar seu filho, ouve a voz de Deus: “Não toques na criança, não faça nada contra ele, pois agora vejo que temes a Deus já que não me negastes teu filho”. Em seguida Abraham oferece um carneiro em sacrifício no lugar do filho.
No Livro dos Juizes, aparece a figura de Jefté que faz um pacto com Deus quando parte para a guerra contra os amonitas: “Se entregares em minhas mãos os amonitas, a primeira pessoa que atravessar a porta da minha casa para me saudar quando voltar vitorioso da guerra, eu a oferecerei em holocausto”. Quando isto ocorreu, sua única filha, é a primeira a correr em sua direção e neste caso, diferente do anterior não houve reversão e ela foi assassinada por ele.
Com esses quatro exemplos podemos ver o quão antiga é a discriminação, o abuso e os maus tratos que chegam ao assassinato de crianças e mulheres.
Clique aqui e leia o artigo de Contardo Calligaris
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